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Por que o número de crianças hospitalizadas por tentativa de suicídio dobrou nos EUA?

Local 07/08/2017/ 22:32:44
Por que o número de crianças hospitalizadas por tentativa de suicídio dobrou nos EUA?

WASHINGTON - Relatos de mães e pais pedindo ajuda apósencontrarem seus filhos à beira da morte após tentativas de suicídio setornaram comuns em fóruns online e redes sociais nos Estados Unidos.

"Minha filha tomou uma garrafa inteira de Lexapro e meia garrafa deWellbutrin (ambos antidepressivos). Ela vomitou cinco vezes antes de me contar,quando acordei para trabalhar naquela manhã. Essa é uma visão que nenhum paideveria ver", conta Hammer, em um desabafo que deu origem a mais de 15relatos semelhantes.

Ann diz que não sabe o que fazer para ajudar a filha. "Ela tem 15anos e tentou se suicidar hoje ingerindo produtos de limpeza. (...) Ela játinha tentado se matar vários meses atrás com um corte no pulso."

Claudia fala sobre culpa e vergonha.

"Minha filha, uma criança linda e talentosa, teve uma overdoseontem e eu sinto vergonha por não tê-la ajudado e protegido suficientemente.Sinto culpa, porque meu trabalho é garantir que a vida dela seja boa e segura.Mas no fundo, muito no fundo, também sei que a vida hoje é incrivelmentedifícil para as crianças. As cobranças e expectativas parecem se mover muitorápido para que eles acompanhem, e eles sentem que falharam."

Phyllis fala sobre o filho, um menino de 15 anos. "Encontrei meufilho no meu quarto, em overdose depois de tomar meus remédios. Não consigoparar de pensar no que poderia ter acontecido. Não consigo dormir, não consigocomer, e aquela manhã não sai da minha cabeça. Encontrei-o deitado na minhacama, quase sem respirar."

As tragédias se refletem nos resultados de dois relatórios divulgadosrecentemente nos EUA. Eles chamam atenção para um crescimento sem precedentesnas tentativas e mortes consumadas por suicídio entre crianças e adolescentesde todo o país.

As meninas encabeçam o grupo que mais cresce nesse ranking, evidenciandoos impactos de problemas geralmente associados a adultos - como depressão,ansiedade, bipolaridade e pressão por padrões de beleza inatingíveis - na saúdemental de quem ainda frequenta a escola.

Recorde

De acordo com dados divulgados na semana passada pelo Centro de Controlee Prevenção de Doenças do governo americano, as mortes de meninas entre 15 e 19anos por suicídio atingiram um recorde em 40 anos - e dobraram entre 2007 e2015, com 5,1 casos para cada 100 mil.

O fenômeno atinge também crianças e adolescentes do sexo masculino,cujas mortes ainda acontecem em maior número, mas crescem em ritmo menosacelerado: 30% no mesmo período (são 14,2 casos para cada 100 mil), segundo oórgão oficial.

Em números absolutos, em 2015, foram registrados 524 suicídios demeninas e 1.537 de meninos entre 15 e 19 anos.

Outro relatório apresentado recentemente no Encontro Anual de SociedadesPediátricas dos EUA aponta que as internações de menores de idade porpensamentos ou tentativas de suicídio dobraram entre 2008 e 2015.

O estudo se focou em crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos e,novamente, apontou que o grupo que mais registrou aumento nas internações é odas meninas - que atualmente respondem por 2 em cada 3 dos casos.

O suicídio é hoje a segunda principal causa de mortes de crianças ejovens em idade escolar (12 a 18 anos) nos EUA, ficando atrás apenas deacidentes.

O volume impressiona: a taxa de suicídios infanto-juvenis, segundo ogoverno americano, é maior que a soma das mortes por câncer, doenças cardíacase respiratórias, problemas de nascimento, derrame, pneumonia e febre.

Pressão online

Chefe da ala de saúde comportamental do hospital pediátrico CookChildren's, no Texas, a psicóloga Lisa Elliott diz que os dados recém-revelados"são absolutamente dolorosos, mas não são uma surpresa".

"Nós precisamos tirar os estigmas da saúde mental", diz a PhD,alertando para a incidência dos quadros entre menores de idade, e não só entreadultos. "Problemas de saúde mental têm que ser vistos pelos pais comoqualquer doença, da mesma maneira que os problemas de coração são."

Em coro com outros especialistas, ela afirma que o quadro se agrava pelouso irresponsável de redes sociais, que pode gerar competitividade e uma buscapor padrões de beleza e desempenho.

"As redes podem ter impacto negativo sobre a autoestima das meninase isso aumenta o isolamento delas", avalia Elliott. "Quando notam quenão têm uma vida tão perfeita ou glamourosa quanto a de outros, elas concluemque 'algo anormal ou errado está acontecendo comigo'."

Segundo a psicóloga, a sensação de invisibilidade nas redes impulsionapráticas ligadas ao bullying entre jovens de ambos os sexos.

"O anonimato traz uma desumanização, uma perda de empatia pelosoutros, especialmente aqueles diferentes de nós. Assim perdemos a capacidade derespeitar as opiniões diferentes, o que infelizmente resulta em mais bullying emais isolamento."

À BBC Brasil, Eileen Kennedy-Moore, psicóloga e autora de diversoslivros sobre saúde mental infantil, diz que não faz sentido proibir o acesso aredes sociais ("os celulares e tablets estão aí, não há como lutar contraisso"), mas que os pais precisam colocar "limites sensatos" narelação entre seus filhos e aparelhos eletrônicos.

"Adolescentes e crianças sempre tiveram a sensação de uma audiênciaimaginária, de que todos estão sempre olhando para eles", conta aespecialista, que vive e trabalha em Nova York.

"Com as redes sociais, a experiência de ser vigiado e julgado otempo todo aumenta", avalia.

Segundo Kennedy-Moore, os aparelhos eletrônicos "também precisamser colocados para dormir, já que nada de bom acontece nesses telefones depoisda meia-noite".

"As relações online podem ser uma fonte de apoio e conforto.Pacientes de câncer, por exemplo, encontram grupos de apoio na internet que sãomaravilhosos", diz Moore. "Mas amizades online não podem substituiras amizades cara a cara, e os pais precisam prestar atenção nisso."

Economia e 'contágio'

Daniel J. Reidenberg, diretor do Conselho Nacional para Prevenção deSuicídios, alerta para outras raízes associadas ao aumento dos suicídiosinfanto-juvenis.

"Há uma pressão extrema sobre esse grupo por competição, ambições epreocupações com o futuro", diz.

"Crises econômicas também têm impacto, uma vez que alguns jovens sesentem um fardo para as famílias. Jogos, vídeos, TV e filmes também influenciammuito as mentes dos jovens. Outra chave para a questão são outros suicídios aque esses jovens expostos. O contágio do suicídio é real, e os jovens sãoparticularmente sensíveis a ele", diz o especialista à BBC Brasil.

Segundo Lisa Elliott, enquanto meninos que tentam cometer suicídioapelam para métodos mais violentos, como o uso de armas, os casos de meninassão normalmente associados ao excesso de substâncias controladas e drogasilícitas.

"Adolescentes não entendem completamente as drogas que estãoingerindo e suas potenciais consequências. Isso pode resultar em overdoses acidentais",alerta.

De acordo com os entrevistados, os pais que buscam ajuda profissionalnormalmente contam que encontraram menções a suicídio nos telefones ou cadernosdos filhos, ou perceberam mudanças de comportamento, como isolamento eafastamento dos amigos, irritabilidade, problemas de sono e em notas escolarese falta de interesse em atividades que antes agradavam.

"A tentativa mostra muitas vezes que as crianças querem dizer queestão muito bravas ou tristes, mas não sabem como articular isso", avaliaKennedy-Moore. "E muitas pesquisas mostram que a maioria dos que tentam sesuicidar acaba se arrependendo do ato."

Para Elliott, os dados apontados pelas pesquisas não devem ser ignoradospelos pais - cujo maior erro costuma ser achar que histórias como as que abremesta reportagem nunca acontecerão com pessoas próximas.

As referências a suicídios no noticiário, segundo a especialista, podemservir como oportunidade para conversas sobre o tema entre pais e filhos.

"Pergunte a eles por que acham que isso está acontecendo e sesentem algo semelhante", diz. "Assim, você pode descobrir muito sobreo que eles ou seus amigos estão vivendo."

A presença dos pais nas vidas das crianças e jovens é a estratégia maiseficaz, segundo os entrevistados.

"Muitas vezes, nós enchemos a agenda dos nossos filhos comatividades porque pensamos que é saudável, quando seria melhor ter mais tempocom relações humanas saudáveis e realmente gastar tempo em família comqualidade, sem dispositivos eletrônicos", afirma Elliott.


(BBC)

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